Ela resolveu escrever uma carta à mão em homenagem aos cinquenta anos dele. Já havia passado mais de vinte aniversários ao seu lado e não se lembrava de quando havia escrito a última carta com papel e tinta. Escolheu uma seda amarelinha comprada em Paris e guardada numa gaveta para uma ocasião especial. Não sabia se aquela era realmente uma ocasião especial, mas como nunca saberia com antecedência, colocou o papel sobre a mesa de jantar, inspirou fundo e ouviu o silêncio da casa.
Começou com “meu querido”, já agradecendo pelos anos de convívio, pelas velas que já apagaram juntos, pelo companheirismo e pelo filho que fizeram e criaram até o dia em que ele completou dezenove anos onze meses e vinte e dois dias de vida. Se precisasse, ela não saberia explicar como ainda vivia com alegria, mas o abraço dele, sempre quente, naqueles momentos em que seu único desejo era um descanso eterno, com certeza a ajudava.
Agradeceu pelo apoio no segundo momento mais triste da sua vida, quando perdeu seus seios para uma doença perversa que até hoje a faz duvidar da existência de Deus, e achou desnecessário recordar a mágoa que ainda guarda por ele não ter tido força para resistir a dois peitos perfeitos justamente quando ela ainda não conseguia ficar nua nem na frente do espelho. Ela chegou a compreender, mas compreensão não acaba com dor. Nem alivia.
Mas um dia ele voltou a tocá-la e ao invés de prazer ela sentiu gratidão, que passou a alternar com a raiva, que por sua vez foi aparecendo em espaços de tempo cada vez mais longos. Ela ainda aparecia, mas hoje já sabia despistá-la.
Decidiu lembrá-lo de que ele ainda era a sua escolha, reafirmada diariamente com o bule de café que ela deixava preparado logo às seis da manhã, enquanto ele saía da cama para tomar banho.
Terminou desejando-lhe um feliz aniversário e antes de assinar a carta sentiu que deveria escrever um “eu te amo”, mas não conseguiu. Ela havia falado em dor, alegria e esperança, como poderia reduzir tudo o que havia escrito e vivido com ele num “eu te amo”? Então não era óbvio que ela o amava, se o amor é cuidado, compreensão, empatia e entrega? Fala-se tanto sobre o amor que chegou a duvidar que conhecesse seu significado. Se amor era o que a mantinha nesse casamento, o que ela sentia pelo filho, por uma árvore plantada no quintal da sua casa e pelo cachorro que dormia aos seus pés, como era possível que fosse simbolizado numa só palavra? Ou, na verdade, ela simplesmente não conseguia escrever “eu te amo” porque o amor pelo marido havia se transformado em hábito? E se era isso, não é possível amar um hábito? E alguns hábitos não viram hábitos porque repetimos aquilo que amamos?
Soltou a caneta e levantou os olhos para o tempo. Lembrou-se da xícara herdada de sua avó, envolta num pedaço de feltro no fundo do guarda-roupa, porcelana Rosenthal branca com detalhes de flores azuis e filetes de ouro, único bem material que sua avó conseguiu esconder dos nazistas e que chegou do outro lado do Atlântico com a asa quebrada. Sua avó gostava ainda mais do objeto que fora de sua mãe perdida na guerra por causa dessa imperfeição. “Isso é a vida, minha neta. Ninguém passa por ela sem uma mutilação, nem mesmo as xícaras”. No dia em que a avó morreu, antes que qualquer parente percebesse, a xícara já estava escondida no seu guarda-roupa. Nos momentos de angústia ou aflição, era para aquele objeto de adoração de três gerações que ela olhava. Quando a vida do seu filho foi interrompida, foi olhando para a xícara de asa quebrada que ela rezou com os dois joelhos no chão.
Colocou um pouco de água para esquentar e desembrulhou a xícara mais uma vez. Sempre que fazia isso passava a ponta dos dedos pelas flores e pela borda dourada. Olhou para ela com os olhos doídos e o coração vazio. Esquentou-se com um chá de camomila e voltou para a carta interrompida, onde escreveu, antes da sua assinatura, “eu te amo”.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
O QUE HÁ EM COMUM ENTRE UM TÊNIS E UM NOTEBOOK?
Tecnologia? Globalidade? Imagem de marca? Claro, tudo isso.
Mas não é disso que quero falar. É sobre outras coisas que sabemos, mas talvez não pensemos muito a respeito.
Que tal pensar que o preço de um tênis de alta tecnologia e um notebook de configuração decente custam a mesma coisa? E que o impulso, a sede nos olhos, a faca nos dentes para comprar também são iguais?
A madrugada de hoje foi povoada por enormes filas em alguns locais, constituídas por pessoas ditas comuns, todas com o mesmo propósito. Comprar ingressos para um grande show? Não. Simplesmente gente que queria aproveitar a grande liquidação de eletrodomésticos e eletro eletrônicos que algumas cadeias de varejo marcaram para este dia, oferecendo descontos de "até" 70%. Geladeiras, micro ondas, máquinas de lavar, computadores, jogos, TVs e muitos outros, liquidificando as mentes numa ideia fixa coletiva.
Apressados diriam que é mais uma demonstração da nova classe C. Que nova o que! Desde quando a expansão de crédito motivada pela necessidade dos bancos botarem o dinheiro para trabalhar quer dizer mudança no jogo social? Mas este não é o ponto.
A fissura com a qual as pessoas permaneceram na vigília quase religiosa nas portas do Magazine Luiza não difere daquela do grupo que passa a noite à porta das lojas Apple em todo o mundo para comprar o novo modelo de iPhone ou qualquer outra novidade.
Voltando ao preço, pense em Adam Smith percebendo que é necessário o mesmo volume de moeda para comprar um tênis Mizuno de alta performance e um laptop Dell já com sistema operacional incluso. Como ficaria naquela mente brilhante a grande Revolução Industrial?
Parece que é isto que os filósofos queriam dizer quando falavam que devemos buscar Roots and Wings. Um bom tênis para os pés e um computador para as cabeças.
Mas não é disso que quero falar. É sobre outras coisas que sabemos, mas talvez não pensemos muito a respeito.
Que tal pensar que o preço de um tênis de alta tecnologia e um notebook de configuração decente custam a mesma coisa? E que o impulso, a sede nos olhos, a faca nos dentes para comprar também são iguais?
A madrugada de hoje foi povoada por enormes filas em alguns locais, constituídas por pessoas ditas comuns, todas com o mesmo propósito. Comprar ingressos para um grande show? Não. Simplesmente gente que queria aproveitar a grande liquidação de eletrodomésticos e eletro eletrônicos que algumas cadeias de varejo marcaram para este dia, oferecendo descontos de "até" 70%. Geladeiras, micro ondas, máquinas de lavar, computadores, jogos, TVs e muitos outros, liquidificando as mentes numa ideia fixa coletiva.
Apressados diriam que é mais uma demonstração da nova classe C. Que nova o que! Desde quando a expansão de crédito motivada pela necessidade dos bancos botarem o dinheiro para trabalhar quer dizer mudança no jogo social? Mas este não é o ponto.
A fissura com a qual as pessoas permaneceram na vigília quase religiosa nas portas do Magazine Luiza não difere daquela do grupo que passa a noite à porta das lojas Apple em todo o mundo para comprar o novo modelo de iPhone ou qualquer outra novidade.
Voltando ao preço, pense em Adam Smith percebendo que é necessário o mesmo volume de moeda para comprar um tênis Mizuno de alta performance e um laptop Dell já com sistema operacional incluso. Como ficaria naquela mente brilhante a grande Revolução Industrial?
Parece que é isto que os filósofos queriam dizer quando falavam que devemos buscar Roots and Wings. Um bom tênis para os pés e um computador para as cabeças.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Tal pai, tal filha
Em Cuba, uma pessoa está pedindo ajuda para nossa governante suprema para pode vir ao Brasil. Vou lá e dou um palpite.
Do Rio, tem um pessoal engraçado pacas, até lançaram livro e me divirto com o mau humor deles. Vou lá e devolvo um kkkkkk.
Um Titã posta seus versos infantis e outro suas participações em videos. Vou lá e leio. Vou lá e assisto. E digo se gostei ou não. Assim, de chofre.
Em Sampa pré campanha eleitoral, políticos tradicionais ou não, comunicam a que vieram. Vou lá e reclamo do pouco incentivo à cultura, comento sobre o teatro abandonado na zona leste.
Vou lá, sem sair do sofá. Preciso apenas de uma conta de telefone, para ter acesso ao serviço de internet, um computador ou celular e ponto. Vou lá e falo com eles.
Se meu pai fosse vivo, seria um viciado no Twitter e no Facebook. Assim como eu.
Do Rio, tem um pessoal engraçado pacas, até lançaram livro e me divirto com o mau humor deles. Vou lá e devolvo um kkkkkk.
Um Titã posta seus versos infantis e outro suas participações em videos. Vou lá e leio. Vou lá e assisto. E digo se gostei ou não. Assim, de chofre.
Em Sampa pré campanha eleitoral, políticos tradicionais ou não, comunicam a que vieram. Vou lá e reclamo do pouco incentivo à cultura, comento sobre o teatro abandonado na zona leste.
Vou lá, sem sair do sofá. Preciso apenas de uma conta de telefone, para ter acesso ao serviço de internet, um computador ou celular e ponto. Vou lá e falo com eles.
Se meu pai fosse vivo, seria um viciado no Twitter e no Facebook. Assim como eu.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
Lembrete para mim
O boliviano que pedia informações para o policial na Paulista, o engravatado apressado que quase atropelou o carrinho das crianças, a gostosa decotada que sorria para o colega de trabalho, as três amigas que conversavam sobre a nova chefe, o mendigo que acordou com o barulho do caminhão, o gari que limpava o que restou da festa - além das histórias, o vendedor de sucos, o dono da livraria, a senhora que não sabia onde ficava a Pamplona, o jornaleiro sério, a faxineira sorridente. Todos querem a mesma coisa que eu.
sábado, 31 de dezembro de 2011
Feliz VOCÊ, seja lá qual for o ano
Nasci em sessenta e três.
Quarenta e oito anos se passaram desde então e algumas coisas aconteceram. Já tenho algumas histórias para contar.
Enterrei pessoas queridas e amadas e fui a pessoa que discursou nestes funerais. Homenagear aqueles que amamos com a voz embargada é tarefa das que menos gosto. Aprendi que é melhor fazer isso aos poucos, mas todos os dias. Nem sempre consigo praticar...
Vi nascerem crianças amadas e contribuí com a vinda de duas delas. Ganhei outras duas de presente e por escolha, trabalho/aprendo com outras tantas que foram rejeitadas.
Fui sequestrada duas vezes, uma delas com minha filha no carro e com uma arma apontada para sua cabeça de apenas cinco anos. Esta mesma filha, por descuido do pediatra, caiu da mesa de exames e entrou em choque. A culpa ficou comigo.
Entrei em depressão, fui parar no hospital e a única coisa que tiveram certeza é que não sabiam o que eu tinha. Cogitaram tentativa de suicídio. Eu? Me poupe... Sou covarde demais para isso.
Ao nascer o primeiro grande amor incondicional da minha vida, Lucas, quase morri com a quase morte dele.
Emagreci, engordei e tornei a emagrecer. Engordei de novo. Crescer, só um metro e cinquenta e seis centímetros.
Namorei, transei com amor e sem, beijei, abracei, casei, descasei e casei de novo. Fui feliz e triste. Chorei e gargalhei. Fiquei impassível também. Desejei muita gente que nem me olhava. Fui incapaz de perceber os que me queriam.
Rejeitei muita gente que depois aprendi a respeitar. Meu padrasto é um exemplo vivo disto. Bem paciente ele...
Já ganhei muito dinheiro e gastei tudo. Fiz faculdade, curso de tarô, de escrita criativa, eneagrama, programação neurolinguistica, coaching, desenho, pintura em cerâmica e também fiz nada muitas vezes e por muito tempo.
Privilégio de poucos, eu sei, pisei em todos os continentes deste mundo, morei na Alemanha e voltei para São Paulo. Viajei só e não gostei e também já viajei acompanhada e não gostei. Amores foram desfeitos neste trajeto e algumas amizades também.
Falei muito palavrão, xinguei no transito, sofri acidentes.
Passei por revista em cadeia para visitar alguém que eu muito amava, descrente que estivesse envolvido em assassinato. Estava envolvido, foi preso, julgado e condenado. Chorei.
Tive compaixão por assassina de Yorkshire e ódio mortal de motoqueiros que levaram meu espelho lateral. Fui incoerente, confusa e me senti pequena.
Disse coisas que magoaram alguma pessoas. Todas muito generosas, me perdoaram. Eu também perdoei.
Fui à igreja, mesquita, sinagoga, centro de umbanda, candomblé e espírita. Pedi, desavergonhadamente, para qualquer santo, orixá ou rabino que concretizasse os meus desejos. Arregacei as mangas também.
Tenho medo.
Assim como o sol nestes quarenta e oito anos, o medo é presença constante. Amigos íntimos. Crescemos juntos e eu aprendo muito com ele.
Estou esquecendo de muitas coisas e outras estou omitindo mesmo.
Vou passar a meia noite deste trinta e um de dezembro de dois mil e onze numa super festa e minha mãe passará no hospital se recuperando de uma cirurgia cardíaca. A vida é assim mesmo, extremos inclusive na virada do ano.
Tem fatos que eu gostaria que tivessem sido diferentes outros que não tivessem existido e de muitos tenho saudades e jamais serão revividos. Apenas lembrados.
Gosto do fato de poder estar celebrando mais uma virada, sem saber o que me aguarda, quem vou conhecer, quais fatos novos exigirão de mim o melhor que tenho para oferecer e diante dos quais irei me acovardar. Sei que estarei aqui para o que der e vier. Assim como você.
Feliz você!
Adeus ano novo
Quando eu era criança, achava que o ano novo e o ano velho se alternavam na chegada às nossas vidas. Um ano a gente deveria cantar "adeus ano velho, feliz ano novo" e no outro "adeus ano novo, feliz ano velho". Até que num ano perdi a contagem e perguntei para a minha mãe quem chegaria: o ano novo ou o ano velho? E ela respondeu que era sempre o novo que chegava, essa alternância não existia. Como eu podia ser tão burra?, pensei. E nunca mais me atrapalhei com a música, era bem mais simples do que eu pensava.
Hoje, tantos anos depois, acordei com saudades daquela menina que de burra não tinha nada. Acordei com saudades da menina que acreditava que o velho pode substituir o novo. Que ela renasça em mim em 2012.
Hoje, tantos anos depois, acordei com saudades daquela menina que de burra não tinha nada. Acordei com saudades da menina que acreditava que o velho pode substituir o novo. Que ela renasça em mim em 2012.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Carta para 2011
Dois mil e onze,
você não me fez mal algum, afinal é apenas uma invenção romana incapaz de cometer qualquer maldade ou bondade contra quem quer que seja, mas, mesmo assim, não consigo começar essa carta com um “querido” antes do seu nome.
Depois de amanhã você será apenas história e para mim não será das mais bonitas. Derramei mais lágrimas durante a sua existência do que em toda a minha. Acordar durante os seus dias foi uma batalha. Diária. Direi “adeus” a você cansada, quase dilacerada, mas ainda não será dessa vez que desistirei. Para sorte de uns e azar de outros, eu tentarei mais uma vez. Talvez duas. E a partir de hoje, de já, e se não der, do já que virá depois e sempre, até a minha existência virar apenas história também. Bonita para alguns e feia para outros.
E chega por ora. Estou sem energia.
As risadas foram ínfimas perto das lágrimas, mas existiram e eu aproveitei cada uma delas. Convivi com pessoas que me mostraram que vale a pena estar aqui. Li textos lindos. Escrevi muito para conviver com a dor e escrever sempre me faz bem. Conheci pessoas merecedoras de coisas boas. Senti saudade, sinal de que tenho belos segredos no meu coração. Fui a lugares que não conhecia. E eu sempre gosto de conhecer, seja um lugar, um sabor, uma pessoa, um sentimento, uma obra de arte, um som. E ouvi a risada dos meus filhos, o som mais bonito desse mundo perdido na Via Láctea.
Espero que 2012 me encontre serena e que ele ouça mais a minha alegria do que você.
Luciana Gerbovic Amiky
você não me fez mal algum, afinal é apenas uma invenção romana incapaz de cometer qualquer maldade ou bondade contra quem quer que seja, mas, mesmo assim, não consigo começar essa carta com um “querido” antes do seu nome.
Depois de amanhã você será apenas história e para mim não será das mais bonitas. Derramei mais lágrimas durante a sua existência do que em toda a minha. Acordar durante os seus dias foi uma batalha. Diária. Direi “adeus” a você cansada, quase dilacerada, mas ainda não será dessa vez que desistirei. Para sorte de uns e azar de outros, eu tentarei mais uma vez. Talvez duas. E a partir de hoje, de já, e se não der, do já que virá depois e sempre, até a minha existência virar apenas história também. Bonita para alguns e feia para outros.
E chega por ora. Estou sem energia.
As risadas foram ínfimas perto das lágrimas, mas existiram e eu aproveitei cada uma delas. Convivi com pessoas que me mostraram que vale a pena estar aqui. Li textos lindos. Escrevi muito para conviver com a dor e escrever sempre me faz bem. Conheci pessoas merecedoras de coisas boas. Senti saudade, sinal de que tenho belos segredos no meu coração. Fui a lugares que não conhecia. E eu sempre gosto de conhecer, seja um lugar, um sabor, uma pessoa, um sentimento, uma obra de arte, um som. E ouvi a risada dos meus filhos, o som mais bonito desse mundo perdido na Via Láctea.
Espero que 2012 me encontre serena e que ele ouça mais a minha alegria do que você.
Luciana Gerbovic Amiky
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
E se?
Hoje, só hoje, a gente dançasse e se amasse no meio da sala, como daquela vez sobre as pedras? Eu dançaria descalça. Você foi o único que gostou dos meus pés.
Aqui sentada eu vejo tantas pessoas lá fora. Contei setenta em um minuto. Se eu ficasse aqui um dia inteiro veria cem mil e oitocentas. Num ano trinta e seis milhões setecentas e noventa e duas mil e eu não te vejo desde que nos despedimos numa rodoviária há dez anos. Eu ficando e você indo. Você e a pessoa que eu gostava de ser que só existe em você. Perdi duas vezes. Três. Você também levou o filho que não tivemos. Só me lembro de ficar ali reduzida, vendo você, eu e nosso filho partirem dentro daquele ônibus. Não sei aonde chegaram, nem quando. E se chegaram.
Só você viu em mim a alma e a cor de uma leoa caminhando sob o sol. Só você sentiu medo do meu sofrimento no futuro. Só você me protegeu da chuva debaixo de uma rocha. Só você riu quando eu explodi um pudim no meio da cozinha e caí num choro como se fosse boba. Eu até hoje não sei lidar com desmoronamentos. Fico tentando segurar destroços tão maiores do que minhas mãos. Não consigo viver bem com a hipótese de que muitas histórias não chegam a um fim. Feliz ou triste, elas simplesmente não têm um fim. E é assim e eu preciso aprender a aceitar.
Eu sei que hoje você usa terno. Ao lado de outra. Só ela te vê. Mas só dos meus pés você gostou.
E se hoje você fosse uma das pessoas que passam e ficasse? Só para uma dança no meio da sala ou da rua, você escolhe. Eu dançaria descalça, bêbada de silêncio. No fim da dança você olharia meus pés, sorriria, vestiria seu terno para ela e partiria. Talvez levando apenas você.
Aqui sentada eu vejo tantas pessoas lá fora. Contei setenta em um minuto. Se eu ficasse aqui um dia inteiro veria cem mil e oitocentas. Num ano trinta e seis milhões setecentas e noventa e duas mil e eu não te vejo desde que nos despedimos numa rodoviária há dez anos. Eu ficando e você indo. Você e a pessoa que eu gostava de ser que só existe em você. Perdi duas vezes. Três. Você também levou o filho que não tivemos. Só me lembro de ficar ali reduzida, vendo você, eu e nosso filho partirem dentro daquele ônibus. Não sei aonde chegaram, nem quando. E se chegaram.
Só você viu em mim a alma e a cor de uma leoa caminhando sob o sol. Só você sentiu medo do meu sofrimento no futuro. Só você me protegeu da chuva debaixo de uma rocha. Só você riu quando eu explodi um pudim no meio da cozinha e caí num choro como se fosse boba. Eu até hoje não sei lidar com desmoronamentos. Fico tentando segurar destroços tão maiores do que minhas mãos. Não consigo viver bem com a hipótese de que muitas histórias não chegam a um fim. Feliz ou triste, elas simplesmente não têm um fim. E é assim e eu preciso aprender a aceitar.
Eu sei que hoje você usa terno. Ao lado de outra. Só ela te vê. Mas só dos meus pés você gostou.
E se hoje você fosse uma das pessoas que passam e ficasse? Só para uma dança no meio da sala ou da rua, você escolhe. Eu dançaria descalça, bêbada de silêncio. No fim da dança você olharia meus pés, sorriria, vestiria seu terno para ela e partiria. Talvez levando apenas você.
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Essa é uma obra de ficção etc etc etc
O almoço
Água oxigenada em casa? Não, não tenho. Pode deixar essa mancha de sangue na toalha. São apenas os meus óvulos não fecundados por falta de amor. Ainda insistem nessa cor viva. Eu deveria soltar cinzas pelo meio das pernas. Já viu coerência em pote para vender? Talvez ao lado da água oxigenada? Não? Deixe pra lá, logo chega a hora do almoço e ele ainda dorme. Tenho esses olhos inchados porque sou alérgica a lágrimas. Justo eu que vivo afogada. No banho eu sempre torço para que as gotículas de água quente não se desprendam do alumínio do boxe, mas elas não conseguem se segurar e eu choro ainda mais. Já viu que elas se desfazem e não arrebentam? Se um dia eu pedir socorro no banho, não me obedeça, será um grito saído só da garganta. O que me revela está no meu útero, aonde ninguém chega e de onde ninguém sai. O que temos para o almoço hoje, além do meu suicídio? Não, nada de acompanhamentos. Talvez um café amargo antes e Chopin durante. Gosto tanto de suas músicas, mesmo sem saber nomeá-las. Coloque qualquer uma. Você já aprendeu a mexer nesse aparelho de som, não? Se ele não acordar, não o chame. E me deixe na sala, no meio do caminho, talvez assim ele perceba. Tire os meus sapatos, o tapete está tão limpo. O que você usou dessa vez? Pode ficar com eles e com todos os outros. Com as minhas roupas também. Ele seria capaz de embrulhá-las para presente. Será que eu e ela usamos o mesmo tamanho? Não importa, eu também não gostaria de saber a resposta. Não, não se preocupe com a água oxigenada, eu não deixarei manchas de sangue dessa vez. Pensando melhor: cozinhe batatas.
Água oxigenada em casa? Não, não tenho. Pode deixar essa mancha de sangue na toalha. São apenas os meus óvulos não fecundados por falta de amor. Ainda insistem nessa cor viva. Eu deveria soltar cinzas pelo meio das pernas. Já viu coerência em pote para vender? Talvez ao lado da água oxigenada? Não? Deixe pra lá, logo chega a hora do almoço e ele ainda dorme. Tenho esses olhos inchados porque sou alérgica a lágrimas. Justo eu que vivo afogada. No banho eu sempre torço para que as gotículas de água quente não se desprendam do alumínio do boxe, mas elas não conseguem se segurar e eu choro ainda mais. Já viu que elas se desfazem e não arrebentam? Se um dia eu pedir socorro no banho, não me obedeça, será um grito saído só da garganta. O que me revela está no meu útero, aonde ninguém chega e de onde ninguém sai. O que temos para o almoço hoje, além do meu suicídio? Não, nada de acompanhamentos. Talvez um café amargo antes e Chopin durante. Gosto tanto de suas músicas, mesmo sem saber nomeá-las. Coloque qualquer uma. Você já aprendeu a mexer nesse aparelho de som, não? Se ele não acordar, não o chame. E me deixe na sala, no meio do caminho, talvez assim ele perceba. Tire os meus sapatos, o tapete está tão limpo. O que você usou dessa vez? Pode ficar com eles e com todos os outros. Com as minhas roupas também. Ele seria capaz de embrulhá-las para presente. Será que eu e ela usamos o mesmo tamanho? Não importa, eu também não gostaria de saber a resposta. Não, não se preocupe com a água oxigenada, eu não deixarei manchas de sangue dessa vez. Pensando melhor: cozinhe batatas.
domingo, 25 de dezembro de 2011
Um conto de bacalhau
Depois dos quarenta, quem nunca usou óculos começa a sentir a necessidade de usá-los. Tudo o que está mais perto fica embaçado, como por exemplo o rosto dos seus filhos quando vai beijá-los ou as letras dos jornais e revistas que ficam bem menores. Sacanagem.
Portanto, quando este momento chegar, sempre - eu digo SEMPRE, vá ao supermercado com seus óculos.
Amigo secreto sorteado via internet - uma diversão! A sua sobrinha internética faz perguntas, responde e ri sozinha no grupo. Uma farra!
A lista de quem leva o que também já está pronta - a madrinha se encarrega das frutas, a Nonna leva o tender com purê de maçã, os amigos vão trazer o frango com as maravilhosas batatas, sua irmã e o filho chef de cozinha, as sobremesas. E você, o bacalhau. Ninguém pediu, você se ofereceu.
Chegou o Natal. Lista de supermercado em punho, as crianças te acompanham para a saga de fazer compras no dia 23 - uma cuida dos itens para o café da manhã (os primos sempre dormem em casa), outra vai cuidar dos petiscos e aperitivos. E você, como não poderia deixar de ser, vai cuidar dos itens para o bacalhau. E sem óculos.
Fase 1. Por mais de 24 horas o bacalhau fica de molho prá dessalgar. Várias trocas de água e a derradeira no leite. Isto eu já sabia. A novidade surgiu quando começou a luta para separar a pele. O que era isso? Puxa de um lado, passa faca afiadíssima de outro - e nada. Cavoca ali, levanta acolá e a pele resistindo. Você liga prá sua mãe, torcendo para que haja um método mais simples. Tem sim, comprar pronto ou congelado, sem pele e sem espinhas. Piadinha mais fora de hora...
Terminada a fase 2, pele arrancada, na fase 3 descubro que, na vida de um chefe de cozinha a parte mais importante é o auxiliar de cozinha. Ele picada, descasca, lava, separa, coloca nas medidas certas - e provavelmente, também teria tirado a pele. Mas você não tem um auxiliar de cozinha. Cebola, alho, tomates e ovos estão todos à sua espera. A azeitona portuguesa também. Como você foi sem óculos para o supermercado ela está... com CAROÇO! Qual a razão de escreverem com letras tão miúdas nas embalagens?
Cebola refogando no azeite e o bacalhau acompanhando o cozimento, é hora de se dedicar às azeitonas... uma a uma... Incrível como podem ser tão diferentes uma das outras. Algumas só de olhar, o caroço sai. Outras, você dá tres pulinhos e pede prá São Longuinho te ajudar a encontrar uma maneira mais fácil de tirar esse caroço. Suspira e pensa... ainda bem que vão mastigar mesmo, assim não percebem a diferença entre azeitona sem caroço e azeitona esmigalhada. Muitas ficaram esmigalhadas. E não tenho muita certeza se alguma azeitona foi para o lixo e o caroço para a panela...
Agora é só esperar. O tempo e o fogo baixo farão todo o resto. Satisfeita, sorrio - logo todos chegarão e o momento de partilhar um dos momentos mais amorosos do ano se aproxima.
Torcer para o bacalhau não estar muito salgado...
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