quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Cartilha

Hoje eu vi um homem negro com alguns fios de cabelo brancos e muitas rugas no rosto, usando um boné, uma camisa e uma calça sujos de tinta e um par de botas surradas, sentado num dos bancos externos da Biblioteca Mário de Andrade, fazendo exercícios de matemática numa cartilha com um lápis e uma borracha nas mãos e engoli seco para não derramar lágrimas logo pela manhã.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Das coisas que não entendo

Cena 1:

Uma garota entra no campus de uma universidade e um colega pergunta a ela:

Onde você vai?

Ela:

Onde eu vou? Pegar o xerox. Pegar o xerox, pegar o xerox, pegar o xerox. Minha vida se resume a isso: pegar o xerox, ler o texto, pegar o xerox, ler o texto. Não aguento mais pegar o xerox, ler o texto, pegar o xerox, ler o ...

Enquanto esbraveja, ela entra para pegar o xerox no Centro Acadêmico da Faculdade de Letras.

Cena 2:

Eu numa livraria, com uma lista de livros na mão. Um vendedor me pergunta:

Quer ajuda?

Eu:

Ah, quero sim. Já tem um vendedor procurando um livro pra mim no estoque, mas se você puder ver se tem outros da minha lista, agradeço.

Ele:

Mas quem está te atendendo já?


Eu:

Não sei o nome dele.

Ele:

É o Júlio?

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A avenca está louca de internar

Então eu entro num banho devido a mim mesma há horas. Só o barulho da água escorrendo e batendo no chão. Água morna. É quase um presente dos deuses para essa mortal tão cansada. E é quando meu cerébro desliga dessa vida terrena que alguém bate na porta. Uma. Duas. Três vezes. Resolvo ignorar. Eu mereço esse banho. Eu mereço esses minutos. Mas a pessoa insiste. Uma. Duas. Três vezes. Visita a essa hora? Mas visita para bater na porta do banheiro só se for minha mãe ou minha irmã. Será que elas apareceriam sem avisar? Uma. Duas. Três vezes. Ninguém responde quando eu pergunto quem é. Talvez não me escutem. Termino o banho rapidamente. A cabeça vazia já está cheia de impropérios. Saio da banheiro e só vejo a babá dos meus filhos no quarto ao lado. Não, ninguém bateu na porta.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Quem tem medo do Lobo Mau?



E eu que achava que sabia o que era sentir medo quando via um sapo. Até ver o rosto do meu primeiro filho na maternidade. Não, ele era lindo. Tudo bem, um pouco amassado, o nariz tortinho, um olho mais aberto que o outro, mas nada comparado a um sapo. Olhei para aquele rostinho e pensei em escondê-lo de volta no útero. Volta, menino, volta, aqui você estará mais protegido. Doenças, violência, desilusões, traições. Como protegê-lo? Caí dentro da minha impotência e do meu amor. São enormes. E acho que passarei o resto dos meus dias escalando o caminho de volta, sem retorno. E no segundo dia de vida do meu filho eu tive que assinar uma autorização para que ele passasse por uma cirurgia. Um grito silencioso e avassalador no meu peito. Deu tudo certo, mas ainda escuto o eco. E hoje, quando ele fala que está com medo porque o Lobo Mau está na porta, eu vou lá, abro a porta, e digo: vai embora, seu Lobo, que aqui você não entra, ele vai todo saltitante para o quarto dele e eu vou para o meu, chorar de medo do Lobo Mau.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Novaiorqui

Os galhos secos das árvores reforçam a mensagem: estou fora de casa.
Final de tarde de inverno, o céu azul e laranja faz do espetáculo do por do sol quase um arco íris.
Estou fora de casa.
O trajeto do aeroporto até o hotel é percorrido ao som de um idioma que me causa estranheza.
Estou fora de casa.
Muita gente, de todos os tamanhos, tipos e cores, falando no celular, saindo do trabalho, indo ao encontro de alguém. Parecido com o que conheço, mas bem diferente.
Estou fora de casa.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O crack e a reza

Eu vi um bebê se formando no ventre de uma moça corroída pelo crack. Eu vi essa mãe sem idade aparente rodando em frente à Catedral da Sé com um filho se formando no ventre. Em frente a uma igreja. O sinal da cruz da moça que passa. Uma pessoa no ventre de uma mãe viciada em crack. Uma pessoa pequenininha que insiste em crescer num ambiente inóspito. Saia daí, seu teimoso! Duas vidas jogadas contra as pedras. As pedras são mais duras que os ossos humanos. Um crack bem alto foi ouvido no meu coração. Eu ouvi. A moça não. Eu não consigo fazer o sinal da cruz em frente a uma igreja. Eu não gosto de igrejas. E não sei fazer o sinal da cruz. O filho está na esquerda ou na direita? Ou tanto faz? Eu duvido da existência de Deus. Eu penso em recolher aquela mulher até seu bebê nascer e tomá-lo para mim. Penso em colocá-lo no meu coração rachado pelo crack que eu ouvi. Eu não penso nada. Mas sinto tudo. Eu só penso nela. Eu não sei rezar.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A avenca está muito louca

Saio de casa para uma reunião. De carro. Meu marido sai para trabalhar. Também de carro e para o outro lado da cidade. Vou para a reunião e deixo o carro num estacionamento. Na hora de buscá-lo, duas horas depois, o que eu vejo no estacionamento? O carro do meu marido. Penso em ligar para o celular dele para dizer que eu também estava ali, mas opto pelo não. O que ele estaria fazendo lá? Resolvo ficar de butuca, pegá-lo no pulo. Mas que pulo? Que bobagem. Não sou ciumenta neurótica por natureza e também porque meu marido não me dá motivos para isso. Resolvo ir embora, tenho muita coisa para fazer. Peço o carro e o manobrista me entrega o carro do meu marido.

Casa de mulheres e meninos

Às vezes a tarde encontra a casa cheia de meninos e mulheres. Quando isso acontece, as paredes engrossam, o vento pede licença para entrar, as nuvens dão lugar ao sol, o ar ganha aromas e delicadeza e a natureza observa. As mulheres limpam, arrumam, cozinham, lavam, passam, trocam confidências, soltam muitas risadas e cuidam. Nenhuma ordem é dada nessas tardes porque nessas tardes tudo já está em ordem.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Sêneca no bumba


Aposto que isso já aconteceu com você.
É um pensamento, uma intuição, um sentir que passa pelo seu corpo, você presta uma ligeira atenção e... deixa ir. Vou dar um exemplo.
Hoje cedo antes de sair de casa, ao pegar a chave da porta me veio esse não-sei-que, dizendo "pegue a capa de chuva". Peguei a chave e saí.
Como uma das minhas metas de ano novo, que está em pleno andamento, é usar mais o transporte público deixando o carro em casa, segui alegre e contente em direção ao ponto de ônibus.
Tudo que é novidade tem um gosto diferente. Nossa energia está à disposição. Novo é novo, oras! Estar dentro do bumba, lendo um livro tem sido animador! A sensação de estar aproveitando direitinho o tempo, me alimenta. Sêneca no bumba. Parece título de poema...
Chegando ao Largo da Batata, resolvi caminhar pela Faria Lima em pleno horário do rush. As pessoas correndo para chegar na hora ao seu compromisso e a vida acontecendo no bairro de Pinheiros. Muitos falando ao celular, um dia lindo para caminhar, comércio sendo aberto, cheiro de pão de queijo em muitos pontos da calçada e outros cheiros que tiram o apetite.
Durante o percurso, pararam o trânsito para me dar passagem! Impossível deixar de sorrir diante de um gesto delicado destes, mesmo tendo sido feito pelo marronzinho que trabalhava. O trabalho dele fez com que eu me sentisse especial. Gentileza na cidade de pedra.
A primeira reunião aconteceu no horário, depois a segunda reunião também, bolachinhas para o almoço e na sequencia o treinamento. Tudo certo, dia produtivo. Aproximadamente 16,30h na cidade de São Paulo. Verão. 35 graus.
Pergunto a voce, leitor: o que acontece em São Paulo, nas condições mencionadas num final da tarde?
Respondo: seu sapato encharca, o ônibus não chega, seu vestido cola em seu derriere e você promete a si mesma que da próxima vez dará ouvidos à sua intuição. Ou bom senso, tanto faz.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

O quebra-cabeça do respeito

Então a madrugada foi assim: pela terceira na vez na semana, na obra ao lado do prédio, uns dez homens começaram a descarregar um caminhão com centenas de placas de ferro. Era um esforço conjunto para levantá-las e jogá-las na calçada, enquanto outros homens as levavam para dentro da obra. Gritavam ordens. Eram duas da manhã. Até que uns vizinhos se encheram, tiraram os carros da garagem e fecharam o caminhão. Ninguém sairia de lá até que o responsável pela obra fosse encontrado. Caminhão parado, placas de ferro jogadas no chão, vários celulares ligados. E um vizinho que não desceu resolveu colocar um rock pesado no mais alto volume que ele conseguiu. Protestava em favor dos trabalhadores da obra que não podiam trabalhar de madrugada porque caminhões não podem mais entrar em São Paulo durante o dia, o que de fato ajudou a melhorar um pouco o trânsito. Gritando mais alto que a caixa de som, dizia que só abaixaria o volume quando os moradores liberassem o caminhão. Ouvi-a uma voz feminina idosa também gritando, mas defendendo os moradores, pois essa não era a primeira vez que as pessoas eram privadas do sono por causa do barulho da obra. Uns precisam trabalhar ruidosamente. Outros merecem descansar. Tudo no mesmo momento.

Eu fiquei olhando pela janela tentando montar esse quebra-cabeça. Não consegui. São Paulo é uma cidade que não fecha.