quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Se ventar...

Mais um dia...
Ouvir o despertador, pernas e olhos pesados, levantar.
Preparar o café, tomar banho, desjejum.
Caminhar até o ponto, sacudir em pé no ônibus, trajeto.
Bater o cartão, ligar o computador, bom dia, posso ajudar?
Marmita fria, arroz sem mistura, refeição.
Outro telefonema, café sem gosto, boa tarde, posso ajudar?
Sair as cinco, chegar às oito, trânsito.
Abrir a porta, cômodo para arrumar, solidão.
Deitar tarde, sem janta nem tevê, que vida.
Melhor dormir, sem suspirar.
Está que é só o pó...


Te Pe Eme - uma historinha

Há muitos e muitos anos, num mundo em que ainda havia reinos, nasceu uma linda e saudável princesa. Seus olhos eram tão redondos e brilhantes que seus pais batizaram-na de Lua Cheia.

Desde pequena a princesinha brincava com suas bonecas sonhando com o dia em que cuidaria dos seus próprios filhos. Ela queria muitas crianças no seu castelo.

Lua Cheia cresceu e ficou com os olhos ainda mais belos. Na época em que as princesas são apresentadas para seus príncipes encantados, ela conheceu o mais bonito de todos eles. Poucos meses depois se casaram e viveram felizes até o dia em que Lua Cheia desconfiou de que não poderia ter filhos. Já estava casada há dois anos e o número de tentativas era digno de um casal apaixonado. Seus pais e seus súditos a cobravam.

Naqueles tempos os reis e rainhas tinham seus deuses particulares e foi para eles que Lua Cheia pediu ajuda. Todas as noites, antes de se deitar, ela oferecia flores e fazia uma prece para os deuses.

Mais um ano se passou e seu útero continuava vazio. Lua Cheia ficou descrente dos poderes desses deuses e até mesmo de suas existências. Talvez fossem apenas uma invenção de nobres assustados com a vida mundana. A princesa então, mesmo insegura, resolveu procurar por outro tipo de ajuda. Mais terrena.

A primeira que encontrou foi a de uma conselheira, famosa numa aldeia não muito distante. Lua Cheia passava horas conversando com a sábia mulher, mas a tão desejava gravidez não chegava. Desistiu de tanta conversa e bateu na porta de uma feiticeira que lhe preparou uma poção de cheiro e gosto duvidosos, que nada resolveu. Foi ao encontro de um velho enrugado que dizia palavras indecifráveis enquanto batia na sua barriga e costas com galhos de uma árvore que ela nunca havia visto. Ela só apanhou e não engravidou.

Quando o desespero tomou conta de sua alma, Lua Cheia passou a beber sangue de porcos recém-nascidos e a comer placenta de cabras. Quando bebeu sêmen de coelho a conselho de uma conhecida, os deuses – aqueles nos quais ela não acreditava mais, se ofenderam. Todos têm um limite, até os deuses. Vale lembrar que naquela época os deuses não eram entidades dotadas só de bondade e magnanimidade. Muito pelo contrário. Eram vaidosos e irascíveis, capazes das maiores crueldades quando ofendidos. E foi o que aconteceu.

Numa tarde em que Lua Cheia passeava pela floresta à procura de um coelho, um raio desacompanhado de qualquer tempestade atingiu a pobre princesa, que morreu na hora.

Foi assim que Lua Cheia se transformou num espírito carregado de frustração, mágoa, raiva e desejo de vingança. Como ela nada podia contra aqueles deuses e seus raios, o espírito da Lua Cheia passou a apossar-se de mulheres férteis. Nada era mais odioso para o espírito da Lua Cheia do que a fertilidade. O espírito da Lua Cheia, se tivesse o poder dos deuses, roubaria a capacidade de procriar de todas as mulheres. Nenhum ser mais nasceria na Terra. Mas como não era assim tão poderosa, decidiu castigá-las de outra forma.

Uma vez no mês, quase sempre durante o sono de suas vítimas, o espírito da Lua Cheia se apodera do corpo das mulheres, que vão dormir repletas de ternura e acordam com uma vontade inexplicável de destruir tudo o que encontram, vivo ou não. Enquanto possuídas, as mulheres tornam-se incapazes de ver qualquer beleza no mundo e passam dias com as mãos invisíveis da Lua Cheia a torcer-lhes as vísceras e a traqueia. Quando estão a ponto de sair gritando pelas ruas por socorro, o espírito maligno sai do mesmo modo que entrou, sem pedir licença. As mulheres acordam somente com a certeza de que estavam loucas.

Nossos médicos, como nada sabem sobre as coisas do outro mundo, chamam isso de TPM. O espírito da Lua Cheia ri.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

SAUDADE

sau.da.de
sf (lat solitate) 1 Recordação nostálgica e suave de pessoas ou coisas distantes, ou de coisas passadas. 2 Nostalgia. 3Ornit Pássaro muito atraente da família dos Cotingídeos (Tijuca atra); assobiador. 4 Bot Nome com que se designam várias plantas dipsacáceas e suas flores; escabiosa. 5 Bot Planta asclepiadácea (Asclepias umbellata). sf pl Lembranças, recomendações, cumprimentos. S.-da-campina: o mesmo quecega-olho, acepção 1. Saudades-de-pernambuco: o mesmo que jitirana-de-leite. Saudades-perpétuas, Bot: planta da família das Compostas (Xeranthemum annuum).
É uma palavra única. Só existe em galego e em português. É também minha palavra favorita. Talvez porque eu seja tão apaixonada por essa língua que eu fico pimpona de saber que nós podemos expressar esse sentimento de uma maneira que ninguém mais no mundo consegue. E me dá um orgulho danado falar, escrever, me comunicar em uma língua que sabe como dizer saudade. Hoje é o Dia da Saudade, não sei porque. Talvez alguém precisasse institucionalizar o sentimento, ou talvez porque havia algum deputado entediado. Eu gosto de pensar que alguém amava tanto a dor daquele vazio que se instalava, sentia-se tão impotente diante da lembrança do que seus braços já não mais alcançavam; que resolveu criar um dia para sentir saudades, adicionando como regra que não se houvesse mais saudades em dia nenhum após aquele. Acontece que saudade é como fumaça de incêndio ou poluição. Inevitável, indomável, impalpável. Ela passa pelas frestas, enche nossos pulmões. Não existe como dissociar saudades do ar que respiramos. E quando faz muito tempo, já não sabemos dissociar as saudades de nós mesmos. O que mais gosto de saudade, é que ela não pode ser planejada. Ela chega, e só existe quando já é. Não se escolhe quando sentir saudades, assim como não escolhemos quando amamos o que se foi. Às vezes sinto saudades do que está bem na minha frente. É quando realizo que já não sou mais meu objeto de saudades. Então encaro a estranha no espelho e aceito que um dia também posso sentir saudades dela.

20 anos

Há vinte anos, mais ou menos nessa hora, eu recebia a notícia da morte de uma pessoa querida. Mais do que querida, amada. Uma pessoa que oito dias antes havia completado vinte anos de vida. Uma pessoa com quem brinquei, uns vinte dias antes do seu aniversário de vinte anos: vai ficar velho. Uma pessoa que me respondeu com seriedade nos olhos e na voz (tão contrária à costumeira alegria): não brinque com isso, não fale mais disso, eu não deveria fazer vinte anos. Quanta bobagem, pensei. Só pensei. No dia 30 de janeiro de 1992, enquanto esperava por ele sentada numa cadeira em frente ao mar e recebi a notícia de que ele não viria, não viria nunca mais, eu entendi. Ele não devia ter feito vinte anos.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Joelhos

Olhos baixos. Preto não, que ela não vestia preto. Nenhum pensamento em especial, mas evitava palavras. Olhava para os joelhos. O movimento em torno do caixão no meio da sala lhe era incompreensível. Odiava seus joelhos agora grudados e jurava que, de hoje em diante, eles lhe seriam escravos. Sentiu uma estranha cãibra no abdômen, sua coluna se curvou um pouco mais e algum desatento podia supor que ela soluçava. A respiração acelerou, a boca entreaberta e muda, os olhos fechados com força. Não tornaria a olhar para ele. A mão espremia um lenço que alguém lhe dera e ela percebeu seus mamilos rijos. As mãos agarraram a borda da cadeira estofada. O assento estava quente e os joelhos tentavam se separar contra vontade. Inútil.  Crispou o lenço e pequenas ondas vararam seu corpo. A cabeça se jogou para cima com mais energia do que seria de se esperar e os olhos continuavam cerrados. Pouco importava. Soltou a respiração forçada e lentamente enquanto os ombros cederam, a boca abriu sonora e o corpo abandonou a tensão que sustentara por um tempo. Ofegava. O caixão estava a caminho da sepultura, levando este último orgasmo.  E ela determinada a fazer dos joelhos seus escravos.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Astromelias

Comprei um buquê de flores para colocar no vaso em cima da mesa da sala. Um buquê de astromelias roxas que alegraram o ambiente por um par de dias. No final de semana começaram a despetalar. Engraçado que elas não murcharam, não perderam a cor. Simplesmente se despetalam aos poucos quando eu não estou olhando. Cada vez que passo por elas, recolho um tanto de pétalas mortas caídas sobre a mesa e jogo no lixinho da pia. Elas ainda parecem com um buquê, mas eu sei que os dias estão contados. Que em pouco tempo todas as pétalas ter-se-ão ido, e o que sobrará será um punhado de caules embolorados em uma água turva. Fico pensando em qual foi o exato momento que o buquê deixou de ter vida. O instante em que esse processo todo se iniciou. Aquele limite sem volta em que o vivo e vistoso condenou-se irreversivelmente ao destino árido de um vaso morto. E cheguei a conclusão que eu mesma não notei quando minha primeira pétala caiu sobre o tampo de madeira. Nesse final de semana me despetalei. Sem dor nenhuma. Como quando uma rajada de vento joga ao chão as pétalas soltas de astromelia da alma. Elas já estavam soltas, só precisavam de algo que as desprendessem. Seja o vento, seja a gravidade. Pétalas soltas caem. Agarrar-se à ilusão de que ainda são flores não vai fazer delas um buquê. Perdi a confiança em todo mundo que conheço. Não é um exagero. Perdi a confiança na minha família, nos meus amigos. Naqueles que eu tinha certeza que eram amigos. Amei tanto a beleza de um vaso florido, que nem percebi que ele não é mais vaso, não é mais flor. Ainda amo, embora não saiba o que eu ame. Não sei se amo a idéia de astromelias, ou se sou capaz de amar o lixo orgânico que elas se tornam. Confiança é uma pétala. Quando ela se desprende, nunca mais será flor novamente. É possível amar sem confiar?

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Segunda-feira

Como chegou ao café com pernas tão bambas, não sabia explicar. Olhou para os pés, mas não encontrou as formigas que sentia devorá-los. Talvez fosse só o bafo da manhã. Talvez a fome: havia saído de casa só com angústia no estômago. Pediu uma média e um pão na chapa. O pão ela jogou na lixeira da calçada. Na média conseguiu dar dois goles. A agonia quis sair em formato de vômito. Uma gota de suor gelado despencou da testa para o colo. Tentou, mas o bom dia para o balconista não saiu. Uma família dormia na calçada. E suas crianças, onde estavam? Olhou novamente para o atendente que lhe entregara o café, mas não o reconheceu. Por um instante viu seus filhos deitados na rua e seu amor sendo jogado no lixo não reciclável. A angústia começou a gritar sufocada dentro do estômago. Tentava subir até a garganta, mas um gole no café frio deixado em cima do balcão a fez descer. Viu as portas abertas de um ônibus e entrou. Ninguém sabe para onde foi.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Pano de chão, desinfetante, alcool e esponja

Mulher gosta de fazer as unhas no Brasil. Muito. Se nos outros países este assunto é tão sério quanto aqui no país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza, não sei. Pode rir. Você deve ser homem.


Fiz um curso no qual o instrutor usou como exemplo uma mulher que, ao se preparar para uma reunião de negócios, lasca sua unha até o momento perfeita e passa a exibir aquela lasca descoberta, entre todas as outras unhas que ostentam o vermelho "Deixa Beijar".
A concentração vai TOOOOOODA para a maldita unha. Como disfarçar esta merda? 


E eu com isso, pergunta você meu jovem rapaz ou garboso maduro (as mulheres estão entendendo cada uma das palavaras...). Nada, eu sei. Você tem NADA a ver com isso. Mas receberá as conseqüências, eu garanto.


Se esta situação vier, após um dia no qual o objeto fálico mais próximo que a dita cuja tenha encontrado seja o rôdo, eu sugiro o silêncio. E muito alcool. Nela, claro.



quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Angel

Hoje estou ressentida. Sério. Não é um sentimento bonito, eu sei. Mas é um sentimento, e acho que a gente está na brincadeira para sentir todos os sentimentos. Então hoje é ressentimento. Mas nada que cause muito espanto. Não estou ressentida da minha infância, ou de alguém em particular. Estou ressentida sim por não ter nascido com o corpo da Gisele Bündchen, ou da Alessandra Ambrosio. Estou ressentida por sofrer bullying da balança do banheiro. De não poder comer Chocottone com chocolate extra. Verdade que não é um grande ressentimento, e futilidades costumam ter datas marcadas. Mas se uma mulher alega nunca ter se ressentido de uma Victoria’s Secret Angel, está mentindo. Ou pior. É porque seus ressentimentos são muito mais sérios. E daí vem a amargura, o desencanto. Por aqui tento manter assim. Os ressentimentos fúteis, e os amores verdadeiros e profundos.
PS.: E só para registro, já que meus amores são profundos, comunico em tom de piada interna que “se é para o bem de todos e felicidade geral da estufa, diga às avencas que fico”. ;-)

Veja?

Abro a página do Terra para acessar meu webmail e caio num erro há muito tempo não cometido: enquanto a página abre, baixo os olhos para ler algumas chamadas de notícias. Vejo um link para um vídeo com a seguinte legenda: "traficantes criam funk enquanto torturam garota. Veja."

Veja?

Veja??

Veja???

É isso que vocês jornalistas ou sei lá que raio de classe que trabalha no Terra querem que eu veja? Uma garota sendo torturada por traficantes enquanto eles criam um funk? É esse o convite que vocês me fazem? É sério isso ou será alguma piada como a da "Luiza que está no Canadá"? Um novo funk que vai invadir nossos ouvidos à la Michel Teló com seu "ai se eu te pego"? Como seria? "Vai cachorra, desce até o chão, agacha bem gostoso pra eu te dar um safanão." Ou..."eu vou te torturar, até você falar, eu vou te torturar, é capaz de você gostar."

O que eu estou escrevendo? Não sei mais, fiquei atordoada, com dor de estômago, de verdade: a comida que ainda estava no caminho encontrou um estômago embrulhado, está tudo aqui me impedindo de respirar livremente. O purê de batatas deve ter ido parar nos pulmões. Não sei. Não sei se era mesmo uma tortura filmada por um celular e jogada na rede por uma empresa ou um golpe de marketing (de extremo mau gosto). Numa semana em que se falou tanto sobre um suposto estupro no BBB425, eu já não sei mais em que e quem acreditar, até onde me espantar e por quem temer.