Ao redor dos dez anos, quando faleceu Humberto Sarcinella, meu avô paterno, lembro direitinho da seguinte cena.
Horário do intervalo no Externato Vieira de Moraes, no bairro de Campo Belo. Minhas amigas - hoje seriam chamadas de BFFs (ainda prefiro "amigas"), Mônica (morena e carioca) e Marta (loira escuro e paulistana) se aproximaram para ouvir meu segredo.
Em um círculo, pequeno e apertado, olhando para os lados - garantindo que ninguém estranho estaria próximo para nos ouvir - revelei o que se passava em minha casa.
- Meu avô morreu.
Silêncio e uma certa apreensão. Pausa dramática, olhar para os lados, continuei:
- Mas não contem prá ninguém... NINGUEM, ouviram? Pois é segredo. Minha família tá mentindo... estão fazendo um inventário...
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
E nesse dia de finados...
A foice da morte já me arranhou de várias formas. Na primeira foi de leve, bem de leve, só para mostrar que ela existia. Aos 9 anos perdi meu cachorrinho querido. Acho que é a melhor forma de uma criança aprender a lidar com essa que nos espreita desde o nascimento, fazer o quê...
Depois ela passou a foice pesando um pouco a mão, mas ainda dentro da cartilha. Levou meu avô tão amado. Desde que eu aprendi o que era a morte, eu imaginava, ainda criança, meu avô morto e planejava me esconder dentro do caixão com ele, de uma forma que ninguém me visse, para que eu pudesse ficar com ele para sempre. Hoje me pergunto se esse tipo de pensamento é normal para uma criança, mas essa é uma outra história. Eu não fui nem no velório nem no enterro e só chorei sua morte uns dois anos depois. Sinto tantas saudades dele.
Aí um dia a morte veio sem dó e fincou a foice no meu coração e desceu rasgando o que tivesse pela frente até os dedos dos pés. Se tivesse mais espaço, ela continuaria. Fora da cartilha, de surpresa, para mostrar sua força, para mostrar que contra ela ninguém pode nada. Enterrei um namorado que tinha acabado de completar vinte anos, acho que a pessoa mais risonha que conheci até hoje. Uma delícia!
Mas para essa grande dama poderosa não há obstáculos e lá vem ela dilacerando o que sobrou ao levar minha grande, querida, amada, melhor amiga. Coitada, até hoje ela escuta meus lamentos! E participa das minhas alegrias.
Depois meus avós e outras pessoas queridas.
Não tem como não lembrar deles nesse dia de finados, não tem como não lembrar dessas pessoas todos os dias, algumas delas todos os dias mesmo. São pessoas tão presentes na minha vida quanto minha mãe que está aqui agora ao meu lado, brincando com meu filho.
...eu penso como viver é lindo.
Depois ela passou a foice pesando um pouco a mão, mas ainda dentro da cartilha. Levou meu avô tão amado. Desde que eu aprendi o que era a morte, eu imaginava, ainda criança, meu avô morto e planejava me esconder dentro do caixão com ele, de uma forma que ninguém me visse, para que eu pudesse ficar com ele para sempre. Hoje me pergunto se esse tipo de pensamento é normal para uma criança, mas essa é uma outra história. Eu não fui nem no velório nem no enterro e só chorei sua morte uns dois anos depois. Sinto tantas saudades dele.
Aí um dia a morte veio sem dó e fincou a foice no meu coração e desceu rasgando o que tivesse pela frente até os dedos dos pés. Se tivesse mais espaço, ela continuaria. Fora da cartilha, de surpresa, para mostrar sua força, para mostrar que contra ela ninguém pode nada. Enterrei um namorado que tinha acabado de completar vinte anos, acho que a pessoa mais risonha que conheci até hoje. Uma delícia!
Mas para essa grande dama poderosa não há obstáculos e lá vem ela dilacerando o que sobrou ao levar minha grande, querida, amada, melhor amiga. Coitada, até hoje ela escuta meus lamentos! E participa das minhas alegrias.
Depois meus avós e outras pessoas queridas.
Não tem como não lembrar deles nesse dia de finados, não tem como não lembrar dessas pessoas todos os dias, algumas delas todos os dias mesmo. São pessoas tão presentes na minha vida quanto minha mãe que está aqui agora ao meu lado, brincando com meu filho.
...eu penso como viver é lindo.
02 de Novembro de 2011
Das coisas que eu mais gosto na vida: Ficar na cama de manhãzinha acordada.
Nada dessa coisa de acordar e levantar, trocar de roupa, começar a vida. Bom mesmo é acordar, espreguiçar, espreitar as horas no despertador da cabeceira de cantinho de olho, com a cara ainda enfiada no travesseiro, sentindo o aroma do amaciante de roupas no lençol da cama. Rolar para o outro lado e sentir o lençol mais gelado. A cama é queen, mas vazia. A Rainha é virgem e dorme sozinha. Gosto de tentar adivinhar como está o clima lá fora, pela fresta da cortina na janela. Planejar o café da manhã. Pensar em coisas legais para fazer no dia.
Das coisas que eu mais gosto na vida: só são possíveis de forma esporádica. Em feriados, casamentos, funerais e batizados. Senão perderia a graça.
Nada dessa coisa de acordar e levantar, trocar de roupa, começar a vida. Bom mesmo é acordar, espreguiçar, espreitar as horas no despertador da cabeceira de cantinho de olho, com a cara ainda enfiada no travesseiro, sentindo o aroma do amaciante de roupas no lençol da cama. Rolar para o outro lado e sentir o lençol mais gelado. A cama é queen, mas vazia. A Rainha é virgem e dorme sozinha. Gosto de tentar adivinhar como está o clima lá fora, pela fresta da cortina na janela. Planejar o café da manhã. Pensar em coisas legais para fazer no dia.
Das coisas que eu mais gosto na vida: só são possíveis de forma esporádica. Em feriados, casamentos, funerais e batizados. Senão perderia a graça.
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Ele se foi
Outubro agora só em 2012 (se o mundo acabar em 2012 mesmo já se sabe em que mês será?). Novembro chega com promessa de festas, comemorações com pessoas queridas, projetos literários, artigos jurídicos, provas, trabalho, dias na praia e esperança de que tudo isso se realize sim. Estou cansada como nunca imaginei que uma pessoa pudesse ficar, mas quero tudo isso e muito mais porque eu gosto disso aqui. Será uma pena se acabar em 2012.
E já nesse primeiro dia de novembro (be welcome, babe), lembranças da minha avó Miroslava Dragojevic Bosko Gerbovic (quando eu era criança minhas amigas competiam para ver quem decorava o nome dela primeiro), que hoje faria 93 anos. Curta aí, vó Slava, com muita música e dança e palhaçada, do jeito que a senhora gostava!
E já nesse primeiro dia de novembro (be welcome, babe), lembranças da minha avó Miroslava Dragojevic Bosko Gerbovic (quando eu era criança minhas amigas competiam para ver quem decorava o nome dela primeiro), que hoje faria 93 anos. Curta aí, vó Slava, com muita música e dança e palhaçada, do jeito que a senhora gostava!
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
O baile
Em um instante, pequenas gotas de purpurina reluzente bailavam ao meu redor.
Lindas... brancas, vermelhas, amarelas... alternavam-se descompassadamente no descompasso dos meus pés.
Estáticos, buscavam um ritmo que não mais lhes pertencia.
Um tempo sem medida trouxe os beijos não trocados, os projetos relevados, os sorrisos trocados...
Trouxe todas as possibilidades que um rodopiar pode proporcionar.
Girar, sonhar, lembrar, temer...
Sem avisar, também parou.
As luzes não mais rodavam.
O descompasso é do coração.
No corpo, tremor.
Foi o momento do encontro entre tudo o que se teve e tudo o que tememos não ter...
Brilhos estáticos piscam...
Carros passam...
O policial se aproxima.
- Sim, seu guarda... estou bem...um pouco nervosa...não estou ferida... preciso buscar minha filha...
Lindas... brancas, vermelhas, amarelas... alternavam-se descompassadamente no descompasso dos meus pés.
Estáticos, buscavam um ritmo que não mais lhes pertencia.
Um tempo sem medida trouxe os beijos não trocados, os projetos relevados, os sorrisos trocados...
Trouxe todas as possibilidades que um rodopiar pode proporcionar.
Girar, sonhar, lembrar, temer...
Sem avisar, também parou.
As luzes não mais rodavam.
O descompasso é do coração.
No corpo, tremor.
Foi o momento do encontro entre tudo o que se teve e tudo o que tememos não ter...
Brilhos estáticos piscam...
Carros passam...
O policial se aproxima.
- Sim, seu guarda... estou bem...um pouco nervosa...não estou ferida... preciso buscar minha filha...
Outubro 2011
E na última manhã do mês de outubro de 2011, dia das bruxas (ah!), o barulhinho da chuva na janela (aquele que pede mais umas horas na cama) é invadido pelos gritos de um homem que arrebenta os pulmões ao chamar alguém de "viado desgraçado filho da puta" várias vezes. No fim, com todo o ódio que ele podia juntar, solta um "vou te pegar". Eu me encolho na cama, depois de ter perdido as contas de quantas vezes levantei essa noite, e fico esperando o som do tiro, mas ele não vem. Eu então continuo encolhida dizendo bem baixinho "vai, outubro, vai...xô xô xô".
sábado, 29 de outubro de 2011
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Despenhadeiro

Quando eu vejo o tanto de gente andando pelo metrô na mesma hora e penso que nesse exato momento as ruas também estão saturadas de motoristas e pedestres e que também estão cheios de pessoas os escritórios, os supermercados, as fábricas, os shoppings, as escolas, as universidades, os centros de convenções, os hotéis, as padarias e logo mais os restaurantes, eu me assusto, paro de pensar e sigo. Em frente.
Vício.
Hoje os meus jornais atrasaram. O Estado e a Folha só chegaram às 8h40, depois do Globo. Eu já tinha percorrido os sites de notícias na internet, mas enquanto não senti o cheiro do papel e da tinta nada parecia real.
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Só queria dizer que te amo
Ontem aprendi que, quando estou num avião, quer eu goste ou não, entre V1 e V2 estou no limbo.
Hoje, aprendi que bate-boca rola em qualquer lugar, na frente de qualquer um, usa-se qualquer palavra.
E tudo isto parece real num mundo virtual.
Em mil novecentos e oitenta e um, aprendi a dirigir e hoje não sei ensinar isto à minha filha.
Um curso de programação neurolinguística me ensinou a resgatar sonhos.
Acordada, sonhei em ser escritora.
Estudando, entendi que expressar o que sinto, não é suficiente.
Tudo isso... e o que eu queria dizer era tão simples...
Hoje, aprendi que bate-boca rola em qualquer lugar, na frente de qualquer um, usa-se qualquer palavra.
E tudo isto parece real num mundo virtual.
Em mil novecentos e oitenta e um, aprendi a dirigir e hoje não sei ensinar isto à minha filha.
Um curso de programação neurolinguística me ensinou a resgatar sonhos.
Acordada, sonhei em ser escritora.
Estudando, entendi que expressar o que sinto, não é suficiente.
Tudo isso... e o que eu queria dizer era tão simples...
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