sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Enquanto isso...

... na fila do caixa:
- Aí eu falei prá ele, tipo assim, meu, não vai falar nada!?
- E ele?
- Ah, com uma voz besta, falou.. desculpa...
- E você?
- Ah, eu falei "o que?"
- E ele?
- Ah, falou "já disse, to pedindo desculpa aí ô"...
- E você?
- Pô, quem pede desculpa desse jeito, meu? Cara ridículo... Aí eu falei...

...

... no elevador:
- Garanto, estamos alinhados. Dei uma dura no cara, enquadrei mermo.
- Tava na hora, prá ser sincero contigo cara, já tinha passado da hora...
- Eu sei, broder, eu sei... mas é complicado
- Cara, pode ser complicado, mas com a grana que tá rolando tem que descomplicar...
- É, eu sei... eu sei... tem que enquadrar... tem que enquadrar...

...

... na livraria:
- Nossa que bacana! O encontro deve ter sido demais!!
- ...
- Isso é super estimulante...
- ...
- AAHHHHHH NÃO A-CRE-DI-TOOOOOOO!!! Amore, tenho que desligar... eu pre-ci-so beijar e abraçar quem eu encontrei aqui!! Nooooooossa que saudade!!! Re, vou desligar, vou desligar... CARAAAAAAACA, eu tava pensando em você!

No meu café preferido

Eles estavam todos contentes com gorrinhos de Papai Noel e a cada um que entrava eles gritavam pra cozinha: suco de laranja gelado! macchiato médio! pão na chapa!

Resolvi sentar. Cappuccino médio e pão na chapa. Livro do Antonio Tabucchi no colo.

Alguém senta ao meu lado. Só vejo as mãos: levemente trêmulas, com a pele solta repleta de manchas cor de café com leite. Penso nos meus avós, um iugoslavo e outro filho de italianos. As lágrimas param na minha garganta. Sinto que vou me afogar.

A dona do café aparece e o meu vizinho se empluma todo e canta um perfeito Buon giorno, Signora!

As lágrimas se postam nos olhos, todas prontas para saltar. È la lingua più bella del mondo.

Elevador

Eu parei no térreo para deixar uma tupperware com chocottone para os seguranças do prédio. Quando voltei o elevador subiu, em vez de descer para garagem. Fiquei brava, um pouco irritada. Fiquei apertando inutilmente o botão do 2S até que o elevador parou no 9o andar. A mulher que entrou estava chorando. Limpou as lágrimas com discrição, talvez amaldiçoando minha presença dentro do elevador da mesma maneira como amaldiçoei a viagem até lá em cima. Era uma mulher bonita, talvez uns 40 anos. Lábios grossos, olhos amendoados. O cabelo preto e brilhante preso em um rabo de cavalo alto perfeito. Estava bem vestida, com uma calça jeans escura, escarpin preto e um lindo sueter argyle rosa. Ela apertou o 6o andar, e continuava passando os dedos sob os olhos, disfarçando as lágrimas. Imaginei que alguém devesse ter partido o coração da mulher. Imaginei que esse alguém morasse também no nosso prédio. E lembrei que a última coisa que queremos é uma testemunha de nossas lágrimas quando nosso coração despedaça. Pensei que no meio do silêncio daquele elevador iam duas mulheres de coração castigado, e quando o espaço é tão pequeno, parece que o mundo todo se resume apenas a isso. Pensei em como era injusto aquilo. Resolvi que não ia lavar minhas mãos. As lágrimas continuavam teimosas, são muito impertinentes quando querem. Eu não queria ser a garota que a viu chorar no elevador. Então eu falei. Abri minha boca e falei. "Lindo o seu suéter!". A mulher se espantou por um segundo, depois abaixou o rosto até o peito, meio que lembrando qual era mesmo o suéter que estava usando e... sorriu. "Ele é diferente, né!?". Acenei que sim. Era diferente. A mulher sorriu e soltou de leve, quase imperceptivelmente a respiração. Talvez por um segundo ela tenha se esquecido do coração partido. Talvez por um segundo ela tenha se lembrado de todas as coisas que ela era além daquilo. Talvez por um segundo ela tenha se lembrado do dia em que comprou o suéter, da lojista lhe apresentando opções, do momento da escolha. Talvez por um segundo ela tenha pensado como tinha feito a escolha certa ao se vestir pela manhã. E se lembrado de que ela era uma mulher bonita, interessante, sofisticada. Ou talvez nada disso tenha se passado para ela. Mas quando a mulher desceu no 6o andar, o sorriso continuava lá.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Sabe...

ele canta o Samba da Benção como se fosse o Vinícius e eu fico triste vendo que ele é quem não gostaria de ser.

Oi?

Chegou dezembro? Mês de festas, comilância, compras e decisões sobre quem vai pra onde? O que aconteceu com os outros onze meses do ano? Onde eu estava, fazendo o quê? Janeiro e fevereiro...ah, no meio de uma depressão pós-parto, deixa pra lá. Março consegui voltar pro trabalho. Abril e maio? Só lembro que no fim de maio fiz aniversário. Junho? Aniversário do meu filho. Julho? Definitivamente fugiu do meu calendário 2011. Agosto comecei um mestrado, mas quando fiz as provas? Setembro, outubro e novembro? Trabalho-estudo-crianças-crianças-estudo-trabalho. Tá, novembro acabou agora com a festa do meu outro filho. Disso eu lembro. E tudo aquilo que eu havia planejado para 2011?

Será que é mesmo culpa do tsunami?

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

30 de Novembro de 2011.

Uma das maiores descobertas que tive na vida foi de que a gente só conquista liberdade quando estabelecemos limites. É. Meio antagônico. Mas juro que funciona. Fiquei pensando hoje de manhã nisso, enquanto eu tomava café e assistia o Renato Machado conversar comigo de Londres. Eu tenho um paladar bem próprio. Embora eu seja uma avestruz na arte de explorar sabores, tenho minhas predileções confortáveis que posso comer todos os dias. Sou bem conservadora, no fundo. Café da manhã para mim sempre foi: café com leite, pão com manteiga, mamão papaia e suco de laranja. Algumas variações como: requeijão ou geléia, aveia e mel na papaia, ou trocar o pãozinho fracês (nham, nham) pelo integral podem ocorrer. Mas no geral, esse é o café da manhã perfeito para mim. Então um dia o médico diz "sem lactose, sem glúten, sem corantes, sem morangos". (Morangos???) E o que sobra são todos os sabores que eu perdi enquanto estava ocupada demais com os mesmos sabores. Redescobri o arroz. E umas 532 diferentes formas de comê-lo. O mesmo com o milho. Ganhei o leite de soja. Eu torcia o nariz, não achava que combinava. Mas não é que fica melhor no cappuccino do que o leite de vaca!? Grão de bico, soja, quinua. E sinto sabor de infância todos os dias fazendo muito mais sucos naturais do que consumindo os de caixinha. Mas a maior de todas as conquistas: a tapioca! Livre de glúten, sempre me dá a sensação de café da manhã da pousadinha de Canoa Quebrada no meio de Pinheiros. Ando saltitando pelas pradarias dos cafés da manhã nunca dantes explorados. Isso é tanta liberdade, que até me esqueço dos limites que me colocaram.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Talita

Eu sempre penso na Talita.

Conheci a Talita quando passei alguns meses numa escola estadual da capital de São Paulo gravando com a TV Cultura para o MEC. Ela era uma das alunas-personagens.

Baixinha e gorduchinha, a moreninha baiana nos disse uma vez que não sabia falar a língua dos baianos. Como é que é, Talita? Aquela língua assim: ó xente bixim.

Da Bahia ela só lembrava do mar e de que o mar era de todos. Sabia, tia, que o mar não tem dono, que entra nele quem quer?

Ela estava ansiosa para a festa de encerramento. O ministro da Educação vem mesmo, tia?

No dia da festa ela não apareceu. Cadê a Talita? Cadê a Talita?

Implorei para que a diretora me passasse seu endereço e encontrei a Talita numa vilinha bem pobre andando de bicicleta.

"Eu não queria falar 'tchau'", foi o que ela me respondeu.

As cenas mais lindas que já vi

1. Meu marido me esperando no altar
2. Minha bernese puxando meu bernese desesperado da piscina
3. Meus filhos chegando no mundo
4. Um vira-lata sentado na esquina esperando seu companheiro-mendigo caminhar uns três quarteirões
5. Meus filhos entrando juntos no meu quarto hoje de manhã

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

28 de Novembro de 2011.

Hoje eu usei a palavra "convescote" duas vezes. Uma para enviar email para as avencas. Outra, já no final do dia. No aniversário de uma amiga estávamos discutindo porque as pessoas não fazem picnics no Brasil. Então eu propus que a gente organizasse convescotes mensais para avaliar os parques da cidade dentro da modalidade. Qual não foi a comoção despertada pela palavra: con-ves-co-te. Fiquei surpresa por um grupo até grande, até culto, de pessoas não fazerem ideia de que palavra era aquela. Pediram para repetir, o que fiz diversas vezes. Algumas rápidas, outras pausadas, desenhando as sílabas no ar. Houve concurso de soletração, e para que não houvesse mais dúvidas, peguei a caneta hidrográfica e escrevi na mão: CONVESCOTE. Verdade que o picnic já foi incorporado à lingua portuguesa e hoje atende por "piquenique". Mas eu cresci sabendo que convescote era a palavra certa para designar uma refeição coletiva feita ao ar livre onde cada membro contribui com uma parcela dos alimentos. Agora, chegando em casa, fui verificar no dicionário. E não é que convescote virou sinônimo?

Datação1889 cf. AGC

Acepções
 substantivo masculino 
Regionalismo: Brasil. Estatística: pouco usado. 
piquenique 

Etimologia
voc. forjado por Antônio de Castro Lopes (1827-1901, filólogo brasileiro) de conv(ívio) + 1escote

Sinônimos
ver sinonímia de piquenique

Adverbio do cotidiano

Sempre respiro.
Todo dia me deito.
Raramente me exercito.
Nunca como jiló.
A qualquer momento, posso mudar meu caminho.
Já morei em outro país.
De longe, todos são normais.
Gosto de ficar à toa.
Às vezes não sou feliz.
Amanhã, é outro dia.