terça-feira, 29 de novembro de 2011

Talita

Eu sempre penso na Talita.

Conheci a Talita quando passei alguns meses numa escola estadual da capital de São Paulo gravando com a TV Cultura para o MEC. Ela era uma das alunas-personagens.

Baixinha e gorduchinha, a moreninha baiana nos disse uma vez que não sabia falar a língua dos baianos. Como é que é, Talita? Aquela língua assim: ó xente bixim.

Da Bahia ela só lembrava do mar e de que o mar era de todos. Sabia, tia, que o mar não tem dono, que entra nele quem quer?

Ela estava ansiosa para a festa de encerramento. O ministro da Educação vem mesmo, tia?

No dia da festa ela não apareceu. Cadê a Talita? Cadê a Talita?

Implorei para que a diretora me passasse seu endereço e encontrei a Talita numa vilinha bem pobre andando de bicicleta.

"Eu não queria falar 'tchau'", foi o que ela me respondeu.

As cenas mais lindas que já vi

1. Meu marido me esperando no altar
2. Minha bernese puxando meu bernese desesperado da piscina
3. Meus filhos chegando no mundo
4. Um vira-lata sentado na esquina esperando seu companheiro-mendigo caminhar uns três quarteirões
5. Meus filhos entrando juntos no meu quarto hoje de manhã

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

28 de Novembro de 2011.

Hoje eu usei a palavra "convescote" duas vezes. Uma para enviar email para as avencas. Outra, já no final do dia. No aniversário de uma amiga estávamos discutindo porque as pessoas não fazem picnics no Brasil. Então eu propus que a gente organizasse convescotes mensais para avaliar os parques da cidade dentro da modalidade. Qual não foi a comoção despertada pela palavra: con-ves-co-te. Fiquei surpresa por um grupo até grande, até culto, de pessoas não fazerem ideia de que palavra era aquela. Pediram para repetir, o que fiz diversas vezes. Algumas rápidas, outras pausadas, desenhando as sílabas no ar. Houve concurso de soletração, e para que não houvesse mais dúvidas, peguei a caneta hidrográfica e escrevi na mão: CONVESCOTE. Verdade que o picnic já foi incorporado à lingua portuguesa e hoje atende por "piquenique". Mas eu cresci sabendo que convescote era a palavra certa para designar uma refeição coletiva feita ao ar livre onde cada membro contribui com uma parcela dos alimentos. Agora, chegando em casa, fui verificar no dicionário. E não é que convescote virou sinônimo?

Datação1889 cf. AGC

Acepções
 substantivo masculino 
Regionalismo: Brasil. Estatística: pouco usado. 
piquenique 

Etimologia
voc. forjado por Antônio de Castro Lopes (1827-1901, filólogo brasileiro) de conv(ívio) + 1escote

Sinônimos
ver sinonímia de piquenique

Adverbio do cotidiano

Sempre respiro.
Todo dia me deito.
Raramente me exercito.
Nunca como jiló.
A qualquer momento, posso mudar meu caminho.
Já morei em outro país.
De longe, todos são normais.
Gosto de ficar à toa.
Às vezes não sou feliz.
Amanhã, é outro dia.


Estava à caça de um lugar para trocar baterias de
relógios e encontrei este quase quiosque, do Seu Ismar, em Pinheiros. Parede
cheia de cucos de todos os tipos, espaço mínimo para trabalhar, mãos precisas
que não olham para pegar a ferramenta. Diferencia as chavinhas de fenda no tato
e reconhece a certa só de ver o relógio. Respondeu com segurança que poderia
trocar todas as baterias, lógico, independente da marca.
Fiquei olhando, encantada, sem perceber o tempo passar. O
filho dele, Rafael, garotão com cara de 19 anos, aliança brilhando na mão
direita, está lá claramente como aprendiz. O pai pega um relógio, examina,
chama o filho e diz "este você faz", e entrega o serviço facinho ao
garoto, que desajeitadamente abre e troca a bateria. Impaciente mas educado,
fico pensando o quanto ele escolheu este trabalho. Enquanto isso, o pai vai
trabalhando os mais difíceis. "É, este aqui é China, os outros são todos
bons". "Este não tem ponteiro de segundos, precisa esperar para ver
se o minuto muda", revela. Pega o próximo, tira os óculos, coloca o óculo
de alumínio no olho, examina o parafuso. A mesinha, as ferramentas, as gavetinhas
de guardar pecinhas devem ter a mesma idade do exercício dele, 30 anos.
Seu Ismar mostra orgulho e amor
no que faz, é uma delícia.

Lembrete para Margarida

Ah, minha querida, vá ser bonita, vá...

sábado, 26 de novembro de 2011

Sábado de Noemi

Jantares como aquele não eram novidade. As mesmas pessoas, o mesmo restaurante, os mesmos pratos. A diferença estava no sorriso. E só no dela...
Claro que já tinhamos visto seu sorriso em outras situações - em seu próprio casamento, nas festas de final de ano ou com a piada besta contada no churrasco. Aquele era novo.
Suas mãos insistiam em fazer malabarismos e piruetas, sorrindo junto com os lábios. Até os cabelos, quando balançavam, sorriam...

Isto sim é felicidade, pensei. Ultrapassa a fronteira do corpo, se espalha ao redor e marca um momento. Único.

Com este sentir, acordei no dia seguinte e sorri.
A sexta, foi de Celina...
Hoje, será um sábado de Noemi...


26 de Novembro de 2011

Ando pensando em amigos, pessoas na nossa vida. Quem vem, quem vai. Sobre nossa dose de responsabilidadde sobre cada um deles. Sobre qual nossa parcela de culpa e irritabilidade.
Ando pensando na forma bizarra que o ser humano tem de viver. Na necessidade quase desesperada de relação, interação, comunhão. Na frágil singeleza do ser. Ando pensando o quanto as importâncias dadas são virtuais. E como são efêmeras as colunas de estrutura de nossos papéis, que são concreto puro dentro do que projetamos e necessitamos nos agarrar, mas que tão surpreendentemente ruem e desmoronam como glacê de bolo colorido na saliva de uma criança. Ando pensando em crianças. Na brutal inocência da criança. Na violenta autenticidade de caráter e plenitude de uma criança que senta nos degraus da escada e espera sua vez de brincar. Ando pensando, porque é exatamente isso que me abate. Ando pensando em algodão-doce.  

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

25 de Novembro de 2011

Fiquei assustada, óbvio. A gente não recebe esse tipo de coisa assim...
Vou começar a mentir o número de horas que trabalho por dia. Minha irmã está fazendo uma lista de colegas antroposóficos e psiquiatras homeopatas. Por que será que todo mundo sempre acha que eu preciso de um psiquiatra?
Estou na condicional. Tenho de mandar relatórios diários e prometer parar a cada 3 horas. Eu vou mentir. Lógico. Todo mundo mente nessas coisas.

Cenas de uma manhã humana

Na mesa atrás da que eu estava sentada, um grisalho engravatado fala para outro não engravatado:

Passe tudo para o seu nome, se separe da sua mulher, emancipe a sua filha e não deixe rastro algum.

Já na rua, pensativa, uma grisalha que não está grisalha chora e um policial segura a sua mão.